Dois terços das notas fiscais têm falhas que podem comprometer crédito de IBS e CBS

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Levantamento com 6,4 milhões de documentos mostra que erros no preenchimento e na validação das notas fiscais podem gerar perda de créditos tributários na Reforma Tributária.

Um levantamento da empresa de tecnologia tributária V360 revelou que 66,2% das notas fiscais eletrônicas (NF-e) analisadas apresentam falhas que podem impedir o aproveitamento dos créditos de Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), os novos tributos criados pela reforma. O estudo acende um alerta para empresas que ainda não adequaram seus processos fiscais e seus sistemas de gestão às novas exigências.

A pesquisa analisou 6,4 milhões de notas fiscais processadas por 87 grandes empresas, além de informações de aproximadamente 139 mil fornecedores, e concluiu que a maioria dos documentos ainda apresenta inconsistências capazes de comprometer o direito ao crédito tributário previsto no novo modelo do IVA Dual.

Campos de IBS e CBS lideram os erros

O principal problema identificado foi a ausência de preenchimento dos campos destinados ao IBS e à CBS.

Segundo o levantamento, 64,4% das notas fiscais chegaram sem essas informações, enquanto 1,8% apresentaram divergências entre os cálculos informados pelos fornecedores e os valores considerados corretos pela plataforma de validação. Juntas, essas inconsistências representam os 66,2% de documentos com potencial de comprometer a recuperação dos créditos tributários.

Na prática, isso significa que, mesmo com a nota fiscal emitida, o comprador poderá perder o direito ao crédito caso as informações não estejam corretas ou não sejam validadas durante todo o processo da operação.

Crédito dependerá da qualidade da informação

Com a Reforma Tributária, o sistema de não cumulatividade será ampliado.

As empresas poderão descontar do IBS e da CBS os tributos pagos nas etapas anteriores da cadeia produtiva, mas esse direito ficará condicionado à consistência das informações registradas nas notas fiscais e aos chamados eventos fiscais, como confirmação da operação, manifestação do destinatário e demais registros eletrônicos.

Ou seja, não basta emitir a nota fiscal. Será necessário garantir que todos os dados estejam corretos e que o documento seja devidamente validado durante toda a operação.

Fornecedores também passam a influenciar o crédito

Outro dado que chamou atenção no levantamento foi o baixo nível de preparação dos fornecedores.

Apenas 35,8% dos 139 mil fornecedores analisados preencheram corretamente os novos campos relacionados ao IBS e à CBS. Os demais 64,2% ainda não estão adequados às exigências da Reforma Tributária.

Segundo os especialistas, isso faz com que o aproveitamento dos créditos tributários deixe de depender exclusivamente da empresa compradora e passe a estar diretamente ligado à qualidade das informações prestadas por toda a cadeia de suprimentos.

Desafio será receber e validar documentos

Para Izaias Miguel, co-CEO da V360, o maior desafio da Reforma Tributária não estará na emissão dos documentos fiscais, mas na conferência das notas recebidas.

Segundo ele, muitas empresas concentram seus esforços em adaptar a emissão das notas fiscais, quando, na realidade, o maior risco está na entrada desses documentos, já que qualquer inconsistência pode resultar em atrasos, divergências ou perda definitiva dos créditos tributários.

Empresas ainda utilizam pouco as novas funcionalidades

O estudo também mostra que o mercado ainda está em estágio inicial de adaptação.

Entre mais de 10,8 milhões de eventos fiscais registrados nas Secretarias Estaduais da Fazenda (Sefaz), apenas 0,04% estavam relacionados às novas funcionalidades previstas para a Reforma Tributária. O dado indica que a maioria das empresas ainda opera sob a lógica do sistema atual e pouco utiliza os recursos disponibilizados para os testes da nova sistemática.

Como evitar perdas de crédito

Especialistas recomendam que as empresas aproveitem o período de transição para revisar profundamente seus processos fiscais.

Entre as principais medidas estão:

  1. Atualizar os sistemas de gestão (ERP);
  2. Revisar a parametrização tributária;
  3. Conferir o preenchimento dos campos de IBS e CBS nas notas fiscais;
  4. Monitorar a qualidade das informações enviadas pelos fornecedores;
  5. Fortalecer os processos de validação e manifestação do destinatário;
  6. Integrar as áreas fiscal, financeira, compras, tecnologia e jurídica.

A avaliação é que a automação desses processos será cada vez mais importante, já que o novo modelo tributário aumenta significativamente o custo dos erros operacionais.

Preparação vai além da tecnologia

Embora a atualização dos sistemas seja fundamental, especialistas ressaltam que a adaptação envolve também mudanças na governança fiscal das empresas.

Será necessário revisar procedimentos internos, estabelecer rotinas preventivas de conferência documental e acompanhar continuamente as notas técnicas e regulamentações complementares da Reforma Tributária.

Para empresas de grande porte, o desafio estará na integração entre diferentes unidades e sistemas. Já para micro e pequenas empresas, o principal obstáculo tende a ser a falta de estrutura técnica e de investimentos em tecnologia.

Com o avanço da implementação do IBS e da CBS, a qualidade das informações fiscais deixará de ser apenas uma exigência acessória e passará a influenciar diretamente o fluxo de caixa das empresas, tornando a conferência das notas fiscais uma etapa estratégica para garantir o aproveitamento integral dos créditos tributários

Com informações da Folha de São Paulo e Exame