O “split payment” na reforma tributária muda o recolhimento de IBS e CBS, impactando diretamente o caixa das empresas. Gestores devem revisar capital de giro e crédito.
A reforma tributária, historicamente associada a discussões sobre alíquotas, regimes fiscais e obrigações acessórias, promove uma mudança crucial que afeta diretamente o caixa das empresas. A introdução do “split payment”, previsto para impostos como IBS e CBS, estabelece uma nova dinâmica de recolhimento tributário. De forma simplificada, no momento da liquidação financeira de uma operação, o valor correspondente aos tributos poderá ser segregado e direcionado ao Fisco, em vez de transitar integralmente pelo caixa da empresa para posterior recolhimento.
O que aconteceu
- O “split payment” da reforma tributária modifica a gestão do caixa empresarial, segregando tributos no momento da liquidação financeira.
- A nova regra elimina a disponibilidade temporária de recursos que empresas usavam para financiar operações e capital de giro.
- Empresários devem focar em Caixa, Ciclo financeiro e Crédito para se adaptar à nova realidade fiscal.
Pode parecer apenas uma mudança operacional, mas não é. Para muitas empresas, especialmente pequenas e médias, isso exigirá uma revisão importante da forma como administram capital de giro e projetam seus fluxos financeiros. Historicamente, existe um intervalo entre o recebimento de uma venda e o efetivo pagamento de determinados tributos. Durante esse período, o recurso permanece temporariamente disponível no caixa. Com a nova lógica, parte desse valor deixa de representar uma disponibilidade financeira da empresa. É aqui que entra uma reflexão importante: faturamento nunca foi sinônimo de dinheiro disponível e essa diferença tende a ficar ainda mais evidente. Por isso, acredito que o empresário deveria começar desde já a olhar para três Cs: Caixa, Ciclo e Crédito.
Será necessário revisar as projeções financeiras considerando que uma parcela dos recebimentos poderá não permanecer disponível para financiar a operação. Empresas que utilizam essa disponibilidade temporária para pagar fornecedores, folha ou outras despesas podem perceber uma necessidade maior de capital de giro.
Como o ciclo financeiro muda com o split payment?
Quanto tempo existe entre pagar um fornecedor, manter um produto em estoque, realizar a venda e efetivamente receber do cliente? Quanto maior esse intervalo, maior tende a ser a necessidade de capital para sustentar a operação.
Crédito: evitar dívidas caras e planejar
Se o novo desenho aumentar a necessidade de capital de giro, algumas empresas poderão recorrer mais ao crédito para financiar essa diferença. O problema é que isso acontece em um ambiente no qual o custo de capital continua elevado. Ou seja: uma deficiência de planejamento do caixa pode acabar sendo financiada por uma dívida cara.
É justamente por isso que a preparação não deve começar quando o dinheiro faltar. As empresas deveriam aproveitar o período de transição para simular diferentes cenários de fluxo de caixa, revisar o prazo médio de recebimento e pagamento, entender sua real necessidade de capital de giro e renegociar condições comerciais quando necessário. Também é fundamental fortalecer a reserva financeira da companhia e tornar mais eficiente a gestão dos recursos que permanecerão disponíveis.
A reforma tributária exigirá adaptações de sistemas, processos e contabilidade, mas talvez uma das transformações menos discutidas seja justamente a mudança de mentalidade na gestão financeira. O empresário precisará conhecer cada vez melhor o caminho que o dinheiro percorre dentro da sua empresa. Porque mudanças tributárias são riscos que não controlamos. A forma como preparamos o caixa para enfrentá-las, sim. No fim, planejamento financeiro não é tentar adivinhar o futuro. É construir previsibilidade suficiente para que, quando o cenário mudar, a empresa não precise improvisar.
Fonte: Jornal Contábil


