Quando o agro ocupa a mesa, conquista espaço: Reforma Tributária protege cooperativas, mas novo corte no seguro rural deixa produtor exposto

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Enquanto o cooperativismo avança, novo corte no seguro rural amplia a exposição do produtor ao risco

Ao longo dos últimos meses, o agronegócio se acostumou a colecionar preocupações.

Discussões sobre endividamento rural, cortes no seguro agrícola, aumento de custos, insegurança jurídica e dificuldades de acesso ao crédito passaram a ocupar boa parte da agenda do setor.

Por isso, vale registrar quando o resultado segue um caminho diferente.

A regulamentação da Reforma Tributária trouxe uma das principais conquistas defendidas pelo cooperativismo e pelo agro brasileiro durante toda a tramitação do novo sistema tributário: o reconhecimento das especificidades do ato cooperativo e a preservação de um tratamento tributário compatível com a natureza dessas organizações.

Pode parecer uma discussão excessivamente técnica para quem acompanha o tema de longe.

Mas, na prática, trata-se de uma decisão que impacta diretamente milhares de produtores rurais que utilizam cooperativas para comprar insumos, acessar assistência técnica, armazenar produção, obter crédito e comercializar seus produtos.

O temor do setor era claro. Sem regras específicas, as operações entre cooperativas e cooperados poderiam sofrer incidência tributária inadequada, criando cumulatividade, aumentando custos e reduzindo competitividade.

O risco era transformar um modelo construído justamente para gerar eficiência coletiva em uma estrutura mais onerosa do que empresas tradicionais.

Ao longo das negociações, o cooperativismo atuou para evitar esse cenário. E conseguiu.

A presidente-executiva do Sistema OCB, Tania Zanella, resumiu bem a importância do resultado ao afirmar que o reconhecimento do ato cooperativo garante segurança jurídica, preserva a competitividade do setor e protege milhares de produtores que dependem desse modelo em todo o país.

“Não é um detalhe. É uma decisão que ajuda a preservar uma estrutura responsável por movimentar cadeias produtivas inteiras, especialmente no interior do Brasil”.

 

Santa Catarina sabe o tamanho dessa importância

Em poucos estados o impacto do cooperativismo agropecuário é tão visível quanto em Santa Catarina.

Boa parte da força econômica do agro catarinense passa pelas cooperativas.

São elas que organizam produtores, estruturam cadeias produtivas, ampliam acesso à tecnologia, fortalecem a agroindustrialização e conectam a produção local aos mercados nacionais e internacionais.

O resultado aparece nos números.

As cooperativas agropecuárias respondem por mais de um quarto das exportações catarinenses e ajudam a consolidar o estado como uma referência nacional em proteína animal, grãos, leite e industrialização de alimentos.

Não por acaso, Santa Catarina abriga algumas das maiores cooperativas agropecuárias do país e desenvolveu um modelo que combina agricultura familiar, escala produtiva e competitividade internacional.

O cooperativismo catarinense nunca foi apenas uma forma de organização econômica. Ele se transformou em uma estratégia de desenvolvimento regional.

 

As mudanças que fortalecem o setor

A preservação do ato cooperativo na Reforma Tributária não foi a única conquista recente.

Medidas recentes ampliaram a segurança jurídica, o acesso a recursos e a presença das cooperativas nas políticas públicas.

Entre elas estão o acesso a fundos regionais de desenvolvimento, o aumento da participação da agricultura familiar nas compras públicas da alimentação escolar, o reconhecimento do cooperativismo como manifestação da cultura nacional e a consolidação de instrumentos voltados ao fortalecimento da agricultura familiar.

São avanços que ajudam a explicar por que o cooperativismo continua expandindo sua participação na economia brasileira mesmo em períodos de maior instabilidade.

 

Cooperativas por um mundo pacífico

O reconhecimento da importância do cooperativismo não está restrito ao Brasil.

O tema escolhido para o Dia Internacional das Cooperativas de 2026 será “Cooperativas por um mundo pacífico”. A celebração ocorrerá em 4 de julho, primeiro sábado do mês, data tradicionalmente dedicada ao movimento cooperativista em todo o planeta.

A escolha do tema não é casual.

A discussão sobre paz vai muito além da ausência de conflitos. Ela envolve inclusão econômica, fortalecimento das comunidades, participação democrática e geração de oportunidades.

É justamente nesse espaço que o cooperativismo se diferencia.

Enquanto muitos modelos econômicos concentram renda e decisões, as cooperativas distribuem participação, compartilham resultados e fortalecem o desenvolvimento local.

Em tempos de polarização política, desigualdade social e desafios econômicos crescentes, talvez seja uma mensagem mais atual do que nunca.

 

Menos seguro rural, mais risco para o campo

Se a semana termina com boas notícias para o cooperativismo, ela também termina com um alerta importante para a política agrícola brasileira.

Às vésperas do anúncio do Plano Safra, o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural sofreu um novo bloqueio orçamentário.

Desta vez, o corte foi de R$ 56,3 milhões, somando-se aos R$ 461,7 milhões já bloqueados anteriormente. Juntos, os contingenciamentos já ultrapassam metade do orçamento inicialmente previsto para o programa.

A contradição é difícil de ignorar.

Os eventos climáticos se tornam mais frequentes.

As perdas aumentam.

O risco cresce e justamente a principal ferramenta de proteção da renda agrícola perde recursos.

O próprio Ministério da Agricultura reconhece que a redução tende a afetar a abrangência da cobertura securitária no campo.

Em um país que ainda possui uma das menores áreas seguradas entre os grandes produtores agrícolas do mundo, a mensagem preocupa.

Porque toda vez que o seguro rural perde espaço, quem ganha espaço é a imprevisibilidade.

E nenhuma atividade econômica convive tão de perto com a imprevisibilidade quanto a agricultura.

 

Segurança sanitária também é política agrícola

Se o governo federal reduz instrumentos de proteção, Santa Catarina segue oferecendo um exemplo de política pública que funciona.

O Fundo Estadual de Sanidade Animal, executado pela Secretaria de Estado da Agricultura e Pecuária em conjunto com a Cidasc, tornou-se uma das principais ferramentas de proteção da pecuária catarinense.

Mais do que indenizar produtores obrigados a realizar abates sanitários, o fundo garante agilidade, segurança e confiança para que medidas rigorosas de defesa agropecuária sejam efetivamente cumpridas.

Em 2025, mais de 4,8 mil animais foram indenizados, com aproximadamente R$ 20 milhões destinados aos produtores.

“O Fundesa é fundamental para a manutenção do elevado status sanitário de Santa Catarina. Ao mesmo tempo em que fortalece o controle de doenças e protege a saúde pública, garante ao produtor o apoio necessário para recompor sua atividade e continuar produzindo com segurança”, destaca o secretário de Estado da Agricultura e Pecuária, Admir Dalla Cort.

O resultado aparece nos indicadores. Santa Catarina possui nota máxima do Ministério da Agricultura para controle de brucelose e tuberculose bovina e segue sendo referência nacional em sanidade animal.

 

A força de quem constrói junto

O cooperativismo nasceu da ideia de que desafios coletivos exigem soluções coletivas e talvez por isso continue tão atual.

Enquanto parte do debate nacional insiste em procurar atalhos, o cooperativismo segue demonstrando que desenvolvimento duradouro se constrói com organização, participação e visão de longo prazo.

A Reforma Tributária mostrou que ocupar espaços de decisão faz diferença.

O Fundo de Sanidade mostra que políticas públicas bem estruturadas geram resultado e o novo corte no seguro rural lembra que, quando o planejamento falha, o risco não desaparece, ele apenas muda de endereço.

No fim das contas, o campo continua ensinando a mesma lição: quem trabalha pensando apenas na próxima semana sobrevive e quem trabalha pensando nas próximas gerações constrói cooperativas.

Fonte: UPIARA